A pandemia do coronavírus abriu uma janela de grandes oportunidades para o Brasil, do ponto de vista sanitário, econômico e social, e a principal delas é a de como enfrentar a enorme, às vezes abissal, desigualdade marcante nos grandes centros e nos rincões do país. Vivemos numa sociedade cada vez mais excludente e miserável com poucas ilhas de vida digna.

O covid-19 revelou, com certa crueldade, a lida enfrentada por grande parte dos brasileiros para garantir o sustento da família e colocar um prato de comida na mesa. Subempregos e submoradias marcam essa quadra em pleno século XXI em que a pobreza e a miséria ainda gritam, mas sem eco algum para os ouvidos moucos do andar de cima.

Há dissonância entre o que se propõe para esse enfrentamento, mesmo em termos de políticas públicas apressadas e pífias, e a realidade que se vive numa parte considerável dos lares brasileiros.

Quando o governo federal propôs o auxílio emergencial de 600 reais não tinha ideia do desafio que isso representava. Muito se fala mas pouco se tem documentado sobre as milhões de pessoas que sobrevivem na informalidade, dos milhões indocumentados e invisíveis numa realidade que pouco tem espaço no debate público e no interesse dos que detém o real poder econômico.

Costumo sempre dizer que ainda vivemos o obscurantismo da idade média, com suas pestes, epidemias e pandemias, em plena era digital em que o que mais circula nas redes sociais são as informações de falsos profetas, seguidos por um rebanho cego rumo ao abismo do processo civilizatório.

Por diversos motivos nos últimos anos, fomos perdendo a qualidade na educação, a piora do sistema único de saúde, o agravamento dos problemas na área da segurança pública e do desmonte do estado de bem estar social. Tivemos um acelerado processo de desindustrialização e estamos anos luz atrasados em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

A pandemia tem exposto ainda, de forma nua e crua, a nossa incapacidade de fabricar simples máscaras de algodão que se faz com qualquer máquina de costura. O mundo deixou apenas um país a dominar o mercado de manufatura de insumos de uso médico.

Perdemos o sentido de comunidade, de solidariedade, do sentimento de comunhão e pertencimento. Há um velho dito popular que diz que a miséria une e a riqueza separa. Nos vemos miseráveis, vivemos numa sociedade tremendamente injusta com enormes diferenças sociais. Milhões, como já disse, lutam por um prato de comida, enquanto milhares reclamam que seus empregados não querem trabalhar, pois têm medo de morrer. Ou seja aqui, miséria e riqueza andam separadas. Há que ponto chegamos.

Os governos, na maioria dos estados e municípios, não conseguem agir para atender as mais básicas necessidades das pessoas. Quando se vê aglomerações de trabalhadores e desempregados em busca de transporte público percebe-se que não entendemos nada de civilização. O isolamento social, principal condição para conter a pandemia, é desacreditada por líderes e seguidores por ideologia política. Não agem com responsabilidade e dever cívico com seu país.

Ao mesmo tempo a guilda dos banqueiros procura tirar todas as vantagens que podem junto à autoridade monetária e na certeza que não serão notícia na televisão. Não fazem nada para ajudar de alguma forma seus bons e velhos clientes, isto é, suas galinhas de ouro. Não os veem como potenciais consumidores. Preferem matar a vaca em vez de acabar com os carrapatos.

Só como exemplo. O lucro líquido dos quatro maiores bancos que atuam no país, foi de R$ 86,6 bilhões em 2019. Esses bancos, que dominam o mercado nacional, cresceram 18,4% no ano passado e arrecadaram para seus caixas o maior valor nominal da história. O homem é o lobo do homem, já dizia Thomas Hobbes em 1651.

No setor público não adianta a elite política e os burocratas fazerem de conta que a crise não é com eles. Estamos numa época de mudança de paradigmas. Nos três poderes, os privilégios terão que ser revistos e ninguém conseguirá resistir à inovação que essas mudanças provocarão na forma de gestão do estado e das políticas públicas.

Sairemos desta crise, conforme estudo da Fundação Getúlio Vargas, com mais 12,6 milhões desempregados e contração recorde de quase 15% na renda dos trabalhadores. Se quisermos mudar alguma coisa é agora, não em meio a pandemia, mas tão logo passada a fase aguda o mundo vai rumar para uma sociedade mais justa e nós, como nação, não podemos ficar mais uma vez para trás. Não vamos perder outro bonde. Livremo-nos dos idiotas.

Luiz Claudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, é deputado estadual e vice-presidente do PSB do Paraná

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